sábado, 23 de agosto de 2014

Etapa 5: Mértola - Vila Real de Santo António

Mértola – Vila Real de Santo António = 66,4 km

Total Etapa 5 = 66,4 km

Confiante e renovado fiz-me ao troço mais difícil. Sabia que teria meia dúzia de senhoras subidas, com inclinações de respeito e que teria outra meia dúzia, não tão inclinadas mas com uma grande extensão. Desde logo, e após ter deixado o café onde recuperara forças, tinha uma subida até ao castelo que não consegui visitar – na próxima J, seguida de uma descida vertiginosa e radical rumo a uma pequena ponte sobre o sereno Guadiana. Preparei as mudanças, pois vinha aí a primeira delas.

Durante talvez um quilómetro e meio foi a subir, a subir, a subir, bem até perto do sol, que a essa hora queimava mais do que nunca e mais perto do que nunca, a oeste, para onde se ia pondo. O calor acumulado nos 34 graus ao longo da tarde no asfalto alentejano é duro. Foi aqui que percebi a boa opção pelo lenço na cabeça, já lá iam perto de cinco horas. Caso contrário, estaria em apuros, tal era o calor e a bica de suor que não parava, qual cascata. Cada subida era um desafio e simultaneamente uma fonte de motivação, pois cada quilómetro passado, cada pedalada a subir, esperando pela próxima descida, era espaço percorrido, maior proximidade do final.

A margem face ao plano com que saíra de Mértola dava esse conforto, de rolar e poder parar mais vezes, beber água e comer uma bolacha.

Tinha particular cuidado com os carros que vinham nas costas, sobretudo em curvas mais apertadas e com menor visibilidade. Não havia muitos, não apanhei nenhum susto, mas a vigília nunca abrandou nesta fase. Mais uns quilómetros e mais uma descida ingreme, passando por um parque de lazer e terminando a pique numa ponte, antes da segunda grande subida. Custou menos, esta segunda, a primeira abordagem tinha corrido bem na subida anterior e a vontade fez o resto.

Determinado a não ceder, lá andei e parecia que ia custando menos à medida que subia. Por norma utilizo mudanças médias nas subidas, nunca vou leve de mais e assim tinha esse barómetro, consegui sempre manter uma boa relação nas pedaleiras, sem gastar cartucho. Lá em baixo continuava o Guadiana muito sereno, intocável, crente de que o fio de ribeiro que ia passando no verão se tornará um leito poderoso no inverno, tal o declive e a estrutura do vale. Apetecia descer lá abaixo e dar um mergulho para refrescar, mas a noite havia de chegar e queria entrar em terreno teoricamente mais seguro quando estivesse escuro.

Consegui manter, com algum esforço, um plano de paragens de vinte em vinte minutos para beber água e descansar dois minutos que fosse, pois as subidas iam deixando marca e o calor, apesar do adiantado da hora, era muito e desgastante. Não ainda havia sinais da noite e o sol galgava o seu caminho para repousar mesmo ali ao lado da minha cara. Continuava a suar em bica no final de cada subida, grande ou pequena.

Dez ou quinze quilómetros após Mértola parei num café de beira da estrada que sabia ser o último antes de Odeleite. A dona recolhia a placa na rua com a ementa e ia fechar. Perguntei se ainda me vendia duas águas geladas. Que sim, que entrasse. Perguntou-me de onde vinha e respondi … de Lisboa. A sua cara e surpresa foi um momento hilário, perguntando-me se vinha de Lisboa montado “nisto”. “Isto” era o meu trunfo para chegar ao Algarve, a minha mais que tudo naquele momento, o meu foguetão. Rindo-me responde que sim, que havia saído de madrugada e que ali estava.

Numa mesa três alentejanos bebiam cerveja e, devidamente alertados pela dona do café, logo teceram comentários sobre a aventura. O pessimista disparou logo que não chegaria antes de amanhã ao Algarve, que ainda havia muito. O neutro, mais factual, perguntou-me a que horas pensava chegar. O otimista brindou-me com uma tirada e um sorriso franco, que a seguir daí a cinco quilómetros havia uma descida imensa, logo a seguir à subida daí a pouco J, e que até Vila Real era sempre a descer. Brinquei um pouco, disse-lhes que chegaria ainda hoje e que sim, que o percurso seria melhor a partir de agora e com duas águas bem geladas fiz-me à estrada.

O sol agora já estava a desaparecer, a solidão voltava, não havia casas, não havia gente e de repente, depois da anunciada descida, dei por mim a entrar no IC 27. Bermas! Maior proximidade. Ao lado direito corria a estrada antiga, também ela abandonada, envelhecida, discreta mas mantendo o seu orgulho de quem foi uma via de total importância em tempos mais idos. O mesmo, praticamente, que no trajeto entre Beja e Mértola. Estaria a cerca de 30 e poucos quilómetros de Vila Real de Santo António. Mais ânimo. A noite caía definitivamente. A vigília continuava em alta, pois os carros vinham em grande velocidade. Apesar de bem iluminado, luz traseira, refletor no tornozelo esquerdo, colete refletor, luz dianteira, o cuidado nunca era demais. Alguns carros buzinavam para animar, outros buzinavam e ouvia-se umas bocas e risos, talvez a escarnecer, outros passavam tão rápido que só ficava o vento deixado à passagem.

Um sinal para acautelar ainda mais a viagem era a oscilação da bicicleta nas subidas quando me colocava em pé para ajudar ao arranque. Sinal de cansaço e efeito da noite e da menor visibilidade, que isto de pedalar para longe e de noite há quase 16 horas tem o seu impacto.

Para focalizar no que faltava, tinha um objetivo mais imediato, chegar à barragem de Odeleite para parar, comer, alongar um pouco. Seria a última paragem antes de Castro Marim e Vila Real. Faltavam nessa altura cerca de 20 quilómetros para chegar. Era noite cerrada. Comecei a ver água, à direita, já a barragem se anunciava no meio do escuro. A descida para Odeleite permitiu descansar um pouco. É que das seis subidas “fatais” as quatro últimas eram já em plano IC27. Não sendo subidas ingremes como na serra, após Mértola, eram bastante longas, sinuosas, e após duzentos e muitos quilómetros iam deixando marca. Uma mensagem do Pedro teve um efeito altamente motivacional. “A noite é amiga do Randonneur, pedalar a subir, descansar a descer”.

Em Odeleite na penúltima paragem, seria também a penúltima “refeição”. Uma sandes que vinha desde Lisboa e que se aguentou no caminho, uma garrafa de água ainda fresca e um ambiente indescritível, deram para relaxar e ganhar energia para o resto da aventura. A massa de água parada, prisioneira do Homem, impressionava, com a noite escura e com a lua a alumiar tenuemente toda a extensão da barragem. A bem do animal humano, aquela imensidão de água parada é o reflexo da subserviência totalmente ilusória, até um dia em que a rebeldia desta natureza escrava traga novamente ao de cima o selvagem curso dos rios, para a qual não existirá mão Humana suficiente para a enfrentar.

O silêncio era absoluto, um autêntico retiro, um inimaginável paraíso.
Pequeno, senti-me muito pequeno naquele momento, mas mais livre do que nunca, em total harmonia e serenidade com a envolvente.

Logo com uma subida no regresso à estrada, a novidade foi a luz dianteira (já com umas doze horas de tempo de vida em cima das pilhas) que acendeu o vermelho. Tinha pilhas suplentes. Decidi esperar mais um pouco, a luz duraria mais 20 ou 30 minutos, e mais à frente encontrei bastante luz, num nó de entrada e saída do IC. Para além de iluminado, sempre estaria em maior segurança a mudar as pilhas. Nesse momento uma mensagem do Nuno a perguntar onde ia. A caminho de Castro Marim, mas coisa menos coisa, meia hora para chegar. Logo de seguia outra mensagem a dar força, do Luís. A tanta distância havia gente que seguia os meus passos, havia Amigos que davam ânimo, havia ouvidos e vozes. A corrente que ajuda a renovar as forças.

Com as luzes mudadas, nova onda de energia, um sentimento de maior segurança naturalmente, com o caminho bem visível, e de repente … começo a descer, a ver as luzes cada vez mais e numa maior extensão e percebo que era Vila Real. Castro Marim estava logo ao virar da esquina. Começava uma nova frente na viagem, a saída do IC27 e de uma estrada bem tratada, para as estradas mais esburacadas e menos arranjadas, logo mais perigosas. Com o castelo de Castro Marim à vista e gente nas esplanadas a desfrutar do calor, apanho um ciclista à frente, a pedalar devagar no mesmo sentido que eu, sem capacete, com iluminação muito deficitária. Cumprimentei-o e deve ter achado que tinha passado o carrossel iluminado da feira de Castro Verde J. Segurança antes de tudo.

Chegado a Vila Real, na rotunda da entrada e saída da cidade era tempo da última paragem. Tinha duas bolachas com passas e iogurte, que o estomago agradeceu, mandei mais uma água abaixo e … faltavam dezoito quilómetros. Um mega cartaz à minha frente anunciava uma hamburgueria aberta até às duas da manhã. Tentador. Mas queria chegar rápido. Teria certamente alguma coisinha para comer à minha espera. Nada de distrações. Foi altura de deitar fora o lixo que vinha acumulando, garrafas vazias, pacotes de bolachas, as folhas onde conservara as sandes. Tinha ganho novamente algum tempo. a previsão de saída de Vila Real era à meia noite e meia. Havia chegado pelas 22h31m. Descansei durante cerca de 25 minutos e arranquei com uma hora e quarenta de avanço face ao plano.

Decidi seguir pela ciclo via, à cautela, de frente para o trânsito, que existe até pouco antes de Praia Verde/Altura. Conhecendo muito bem a EN125, numa 6ªf de noite, não quis arriscar. A ciclo via é demolidora, está mal concebida, em cada casa com entrada e saída de viaturas tem um desnível que mais parece um enorme buraco, mas ainda assim não tem carros!

Era tempo de redobrar o cuidado. Depois de tanto quilómetro não queria ficar pendurado, nem por furos, nem por alguma distração. A hora era para acabar em beleza.

Próximo destino, final: Cabanas de Tavira. Arranquei muito satisfeito, realizado e motivado, pelas 22h55m.

sábado, 16 de agosto de 2014

Etapa 4: Beja - Mértola

Beja - Mértola = 52,5 km

Total Etapa 4 = 52,5 km

Logo após a saída de Beja e com o regimento de infantaria do lado esquerdo uma placa assinalava obras durante perto de 10 quilómetros. O asfalto oscilava entre os buracos, o mau estado e o piso novo, a ferver, de alcatrão recém calcado. Com cuidado seguia na berma, que se apresentava ora em bom estado, ora esburacada. Rapidamente comecei a ouvir um barulho estranho na bicicleta, não percebendo a princípio do que se tratava.

Com o piso essencialmente a ajudar, em descida, o barulho ia aumentando e não percebia se era da corrente, dos pneus, se era algum furo lento, enfim … parei duas vezes para uma verificação rápida e já depois da viragem para Mértola percebi o que era. O alcatrão quente e muitas das pedrinhas soltas colaram-se aos pneus e ia fazendo um barulho contínuo, tec, tec, tec, …, que me tinha passado ao lado antes. Nova paragem e aí decidi, pedrinha por pedrinha, retirar todas as que estavam incrustadas na borracha dos pneus, sobretudo do da frente.

Assim que retomei a estrada, já sem barulho e muito mais aliviado, era tempo de dar ao pedal e aproveitar o vento de costas que se continuava a fazer sentir. Com várias descidas, o ritmo era compensado, face ao calor cada vez maior. Estaria talvez na hora de maior calor e para Mértola a temperatura estimada era de mais dois graus do que em Beja. Novamente, repito, tive uma sorte imensa, pois em vez de trinta e quatro graus, poderiam ter sido quarente e aí talvez tivesse sido necessário o plano B.

Era o tempo de olhar a paisagem, agora cada vez menos monótona, com campo, montes, com o gado a inventar pastagens verdes para certamente enganar a fome, com árvores de várias espécies. Era o tempo da solidão e da luta contra o calor, contra a sede cada vez mais permanente. Era o tempo de dirigir o pensamento para algumas palavras a uma árvore solitária, quem sabe a árvore que em alguns de nós vive bem no fundo do que somos e nunca nos abandona:


Ossuda, cinzenta, essencialmente desprovida de verde e de vida, sou aquela a quem mais amam.
Não possuo a beleza do tronco rugoso e forte, nem a copa resplandecente, ou sequer a solidez e a vitalidade castanhas; não darei nunca as folhas belas ou a sombra protetora, do quente inferno estival.
Mas, de entre todas, fui a que resistiu, a que vos resto, aquela que vos foi fiel, no curso das cores, texturas, estações; a que permaneceu de pé, convosco, para sempre.
Sou a testemunha, guardiã, anciã da extensão desta imensa e inacabável solidão, do abandono que vos legaram, campos doirados, tão despojados quanto rebeldes. Campos alentejanos que perpetuarão a resistência, a raiz do medo e do sofrimento, a continuidade; sou uma de vós, convosco, até ao fim.


Era esse mesmo, o tempo de em solidão e aproveitando as descidas, gritar, tão alto quanto conseguia, sem que ninguém ouvisse, ou existisse, ali, para ouvir; gritar o grito cá do fundo, da motivação, da liberdade, do júbilo de poder gritar sem incomodar ou ser incomodado, o grito da vida, da realização da felicidade por estar vivo, bem vivo, crente numa concretização, apenas uma, um retiro de um dia, que chegaria a bom porto, porque as concretizações devem ser vividas e desfrutadas uma a uma, sem misturas e sem sobreposições.

Essa foi a parte do caminho em que, sintonizando com os elementos extremos do Alentejo profundo, me permiti deitar fora o que criava pó nas entranhas, exteriorizar o sangue e a vertigem de sentir a harmonia com o campo, com a raiz de tudo, apenas eu, sem ninguém por perto, sem a civilização a atrapalhar esta comunhão. Foi este o tempo que em alguns minutos transportou uma vida e me deixou saber que chegaria ao destino, aos destinos que escolherei, com o sentimento da plena realização e agradecimento pelas oportunidades.

Levava perto de duzentos quilómetros e a partir daqui entrava em território desconhecido. Aproveitei uma bomba de gasolina a cerca de 20 ou 30 quilómetros de Mértola para uma paragem, ingestão e líquidos, compra de um gelado, um MAGNUM delicioso com amêndoa, compra de águas geladas e uma ida à casa de banho.

Na zona perto do balcão um Alentejano, penso que só poderia ser Alentejano, ferrava uma sesta olímpica sentado a uma mesa. Nem televisão, nem forasteiros que iam e vinham a pagar a gasolina, nem estes aventureiros que paravam para comprar gelados e águas, nada nem ninguém conseguia tombar aquele sono. De peito à mostra, barriga proeminente, barba por faze e bochechas tão redondas quanto vermelhas, assim vi Morfeu, creio que o próprio e não apenas os seus braços, que nos acolhem a todos, diariamente. Bem que desconfiava que Morfeu era Alentejano. Bate tudo certo quando passamos nos locais certos nas horas certas, tudo fica claro e não são precisas explicações.

Revigorado, o resto do percurso até Mértola teve umas pequenas subidas, como que a preparar para o embate na serra, na reserva do parque natural do Guadiana.
O cuidado passava, para além da gestão do calor, pela atenção aos carros e com a ausência de bermas na estrada. Muito atento e vigilante, totalmente focado, ainda havia margem para ver as casas que iam surgindo no meio de alguns montes e por entre alguma mata. Coragem, certamente, a de quem vive ali, isolado, resistente, imune a tudo, sujeito a tudo. Luta, decididamente, muita luta nessa errância pelos caminhos diários da procura.

Uns quilómetros adiante da bifurcação para Castro Verde, uma descida acentuada e eis que surge a placa a anunciar Mértola. Eram 18h10m e tendo mantido a cadência havia feito os 52 quilómetros em duas horas e vinte e nove minutos. Mantinha uma gestão, intuitiva, conservadora, cuidadosa, tal se mantinha o calor e a temperatura.

Ainda havia um segmento muito difícil, as subidas da serra, até Castro Marim e esta seria uma paragem fundamental, para reabastecer e para preparar mentalmente os 80 quilómetros finais. Parei num café muito simpático, comi uma sandes de queijo para acomodar o estomago com sólidos, uma coca-cola bem fresca e pus na bagagem mais uma água adicional gelada de meio litro.


Reabastecido, após novo contacto com os meus ouvidos ao longo da jornada, estava preparado para a parte mais difícil da aventura. Esperavam-me a serra, 6 subidas duras, outras tantas a ajudar à dureza, mas também as descidas. Esperava-me a noite, novamente a solidão, agora mais perto do objetivo, mas numa zona com mais perigos e menor visibilidade para os condutores, com mais incerteza, e praticamente sem qualquer vestígio humano ou posto de reabastecimento. Saí de Mértola pelas 18h37m, com cerca de uma hora e trinta e oito minutos de margem face ao plano, que previra a saída pelas 20h15m. A grande vantagem de poder gerir este avanço era realizar a parte talvez mais perigosa ainda de dia e entrar no IC27 com folga e já com outras condições, bermas largas e escapatórias iluminadas para paragem. Próximo destino: Vila Real de Santo António.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Etapa 3: Canal Caveira - Beja

Canal Caveira – Beja = 61,2 km

Total Etapa 3 = 61,2 km

Saído do Canal Caveira com duas horas de avanço face ao plano era altura de começar a gerir o esforço e sobretudo o calor. O tempo estava ainda nublado mas a frescura da manhã ia-se dissipando. Como dica do maior guru, pela hora do almoço, tinha nunca esquecer os líquidos e pirar-me dali o mais rápido possível, pois era raro o sol estar a descansar até Beja, por estas horas.

Lancei-me em direção ao IP 8, rumo a Beja e nem de propósito, na curva que lhe dava acesso eis que rompe o brilho. Estavam lançados os dados para os próximos sessenta quilómetros, calor em crescendo e sol a bater bem lá do alto.

Pelas estradas tão conhecidas do “Alentejo” que percorria em pequeno quando ia para casa dos meus avós em Avis/Cabeção (a diferença entre alto e baixo Alentejo a nível do asfalto e do arvoredo não é muito nítida para um inculto como eu na matéria) ia seguindo ao sabor da onda de sobe e desce. Ao vivo, estava ali a diferença entre a expressão planície alentejana e a prática, quilómetro após quilómetro.

Mais uma vez não tinha muita noção do ritmo a que ia, mas percebia que estava a manter alguma cadência, cautelosa, dado que a temperatura começava a subir. Haviam previsto 34 graus para a zona de Beja e Mértola e era essa a baliza. Todo o cuidado era pouco no sentido de não acelerar muito, não esticar e ingerir líquidos de forma frequente.

Tendo saído do Canal Caveira pelas 11h58m, uma hora depois estava a dar notícias à família, a ouvir as vozes que me animavam e ia aproveitando para ingerir líquidos. Em Santa Margarida do Sado passa-se a ponte e apetece um mergulho, um pouco a norte um viaduto inacabado de uma futura (?) via rápida ou alternativa ao IP8 e continuava o sobe e desce ondulado pelo Alentejo, sereno, imponente, imortal, uma força natural que não se conta, que vive no sangue alentejano e na dureza das estações que aí embatem.

A caminho de Beja continuava a apertar o calor e eis que entre a fábrica do azeite “Oliveira da Serra” e Ferreira do Alentejo tomei uma decisão importante que me valeu certamente uma boa parte do bem-estar até ao final. Por baixo do capacete coloquei na cabeça o pano comprido branco, tipo legionário no deserto, para proteger do calor, a cabeça e o pescoço. Passado o habitual desconforto inicial, eis-me melhor protegido e mais descansado quanto aos efeitos do sol de chapa na careca.

Iam passando carros, camiões e tratores, uns apitavam incentivando, outros apitavam e gritavam de forma jocosa, outros ainda passavam mais ou menos depressa em total silêncio, uma rajada de vento breve e rapidamente passageira. Dois deles haviam de ser ultrapassados por mim já depois de Ferreira do Alentejo, um deles por ter sido mandado parar pela GNR Brigada de Trânsito, o outro com o capôt ao alto, a arejar, pois que havia tombado no quente asfalto.

A bicicleta continuava em pleno, o corpo ia dando bons sinais, sentia-me bem e de repente começo a ver as placas a anunciar Beja cada vez mais perto. Era uma motivação extra, estava a chegar a meio da jornada, a cerca de 20 quilómetros de Beja, psicologicamente foi um momento excelente, pois não tendo o corpo sinais de cansaço por aí além, era um bom tónico olhar para os quilómetros que iam ficando para trás, como parte do objetivo maior. O foco era ai, no que já tinha pedalado, no facto de, nem nas pernas, nem ao nível do assento estar a sentir dores relevantes, nem, ainda, no facto de o calor estar a dar cabo de mim.

Muitos pensamentos, muita reflexão, muitas caras, imagens e situações vieram visitar-me durante estas perto de três horas alentejanas de passeio ao sol. Os retiros no local certo têm disto, conseguimos ir esvaziando a mente, relaxando, ainda mais quando estamos no meio de uma árdua tarefa e de um objetivo ainda distante, mas para o qual já demos bastante e não há volta atrás.

Com as placas a indicarem o aeroporto de Beja e o sentido de Beja, estava quase radiante por ter chegado ao final desta etapa. Ainda tive tempo para passar em Beringel e relembrar uma sopa de cação que de tão fenomenal, há talvez uns dezoito anos, nunca a esqueci. Antes havia passado na tão famosa estalagem das Picanheiras, um local idílico para alguns colegas de trabalho, J, há muitos, muitos anos. Tal como quase tudo no Alentejo, também as Picanheiras resistem ao tempo e à espécie humana.

Já com Beja à vista é tempo para uma paragem estratégica, mais motivacional que outra coisa, sob a sombra de uma oliveira para fechar um powerade e para alongar um pouco. Logo depois a última bomba de gasolina antes de Beja, a rotunda de entrada na cidade e ali estava o LIDL, local escolhido para a paragem.

O ritmo tinha decrescido um pouco, mas eram 15h00m e continuava com um avanço de duas horas e meia face à hora prevista de saída de Beja. Calmamente procurei uma sombra, um local onde pudesse deixar a bicicleta segura com cadeado enquanto procurava um café no próprio LIDL. Foi também o tempo para avisar os ouvintes e seguidores mais diretos da aventura de onde estava e como me sentia.
Tudo estava a correr tão bem que não queria entrar na ilusão da facilidade, até porque o mais difícil ainda estava por vir. Aproveitei para alongar pernas e tronco e desfrutar das sombras.

Entrei no LIDL e recebo uma brisa fresca, reconfortante e que me permitiu durante uns minutos refrescar o corpo e sobretudo o ânimo. Não me havia lembrado que na filosofia alemã e utilitarista esta grande superfície existe para chegar, escolher os produtos entre filas extensas e paralelas, ir para a caixa, pagar e até à próxima. Nada de superficialidades como um espaço para tomar café ou sentar um pouco. Tudo muito “clean”. Saí, decidi não renovar os powerade e passar a beber apenas água e depois de levantar dinheiro na máquina ATM dirigi-me então a um café no espaço contíguo ao LIDL, um talho de grandes dimensões e aparentemente, volume de negócios, chamado tão a propósito “Matadouro”, em cujas instalações havia um pequeno café.

Era o tempo de sentar um pouco, comprar águas geladas para levar e comer e beber. Ainda tinha sandes (apenas havia comido uma no ferry de Troia) e meti uma boa sandes, o resto do terceiro powerade e uma barra (bolacha com iogurte e passas). Renovado o estomago, arranquei rumo a Mértola.

Tinha demorado três horas de dois minutos a percorrer os 61,2 quilómetros até Beja. Sem monitorização com conta-quilómetros e ritmo, tinha corrido muito bem, um ritmo adequado ao calor, ao trajeto de falsa planície, à gestão do que faltava ainda percorrer. Entrava agora numa fase crítica, onde seria vital gerir o esforço durante o calor e na “descida” até Mértola para aguentar sem sobressaltos os últimos noventa quilómetros.


Pleno de confiança, motivação e regenerado, fiz-me à estrada. Saí pelas 15h41m, com cerca de uma hora e quarenta e nove minutos de avanço face ao plano estimado de saída, treze minutos mais tarde do que na saída do Canal Caveira. Não estava nada mal para o primeiro embate com o calor alentejano. Não tinha sido necessário, até ali, acionar o plano B, descanso forçado numa qualquer estalagem ou residencial.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Etapa 2: Troia - Canal Caveira

Troia – Canal Caveira = 56,1 km

Total Etapa 2 = 56,1 km

Após o descanso e enchimento durante a viagem no ferry, saí em Troia revigorado e pronto a dar forte no andamento. Arranquei pelas 9h10m, menos 1h20m do que a saída inicialmente prevista a partir de Troia o que era um bom sinal, sobretudo porque poderia evitar mais calor na zona do Alentejo profundo. Não deu para espreitar nada de Troia, a não ser a vizinhança de vivendas e espaços aprazíveis que a tornam uma das zonas talvez mais paradisíacas do nosso país.
Tomei a estrada em direção a sul, rumo à Comporta. De vez em quando iam passando um carro, e outro, e outro, muito espaçados.

A paisagem inspirava-me um misto de deleite com solidão; com o Atlântico à direita, tão próximo e poderoso, silencioso nesse dia ainda sem sol, e com uma brisa agradável a tornar menos pesada a viagem, e as zonas de pântanos e lodosas à esquerda, com a vista da Setenave lá mais longe, uma cópia da Lisnave, localizada na península de Setúbal, mas em tudo parecida, pelo menos vista da outra margem.

A estrada estava em boas condições e o andamento fazia-se sem grande cansaço, com vento pelas costas e com terreno essencialmente plano. O trajeto começava a ser monótono, pois não havia nem carros, nem pessoas. Aquele cenário selvagem, intocado e virgem, protegido, é bonito mas igual, durante grandes extensões.

Na zona da Comporta parei numa bomba e comprei finalmente o protetor solar. Dois dedos de conversa com a moça que estava de serviço e era hora de seguir.
À direita surgiam agora arrozais, extensos, num verde tão largo que a vista não lhe alcançava o fim. Pelo movimento dos carros que me iam ultrapassando percebia o horário dos ferrys, pois eram por levas.
Ia-se passando uma terra com meia dúzia de casas à beira da estrada, e outra e ainda mais outra, mas muito pouco sinal de pessoas.

A determinada altura não percebia sequer se estava com um bom andamento ou não, tinha-me deixado cair na monotonia e começava a senti-la. Começou a custar a pedalar, não pelas condições físicas mas sobretudo pela disposição e pela solidão. Ainda faltava tanto e não era bom sinal. Decidi parar, beber e comer mais uma metade de uma sandes, sensivelmente pelas 10h30m, o que queria dizer, pensava eu, que teria meio caminho percorrido até ao Canal Caveira.

Foi um tónico importante, a partir dessa pequena paragem voltei a ganhar ritmo, ou pelo menos a perceção de que ia com um bom ritmo. A bicicleta estava em ótimas condições, o corpo respondia, a motivação voltava e mais à frente começo a ver as placas a direcionar para Melides, Sines, etc., o que significava que estava a chegar perto.
A determinada altura a placa para Grândola e a entrada no IP1, para fazer a meia dúzia de quilómetros até ao almoço.

Aproveitando as características da estrada, com uma boa inclinação a descer, sentia-me voar. À esquerda um carro parado na berma, meio escondido, com uma perna e um salto alto a espreitarem pela porta do condutor aberta, a recordar que por aquelas bandas se mantêm atividades antigas, agora com mais mobilidade.
Já não passava nesta estrada há muitos anos e eis que surge a “torre” à vista, aquela torre que sempre anunciava a paragem para comes e bebes.
Assim foi desta feita e qual não foi o meu espanto quando olho para o relógio e vejo que era 11h26m e havia percorrido os 56 km em 2h15m, sensivelmente, um ritmo que me deixou de pé atrás, pois se por um lado me sentia bem, por outro ainda só levava um terço da aventura pelas costas e faltava o mais difícil.

Não sentia qualquer dor nas pernas e no assento, as que tive foi por volta dos 80 ou 90 km, o que é habitual e penso que seja a fase em que o corpo se adapta efetivamente à longa distância, após as três horas e meia ou quatro horas de esforço. E perceberia mais à frente algo que tenho constatado nas longas saídas: é um modelo binário, este, da gestão do esforço, quando surgem as dores ou há reação e se continuam e as dores param, ou não dá mais e acaba a brincadeira. E por isso a diferença é feita muito com base no plano mental, asseguradas que estejam as condições de treino de base.

No Canal Caveira decidi não embarcar em aventuras gastronómicas. Optei por uma sopa de legumes, bem nutrida e reconfortante, uma coca-cola e um pastel de nata. Foi igualmente altura de enviar uma mensagem à malta que me seguia mais de perto e que iam incentivando ao longo do caminho. Falei para “casa” e pouco depois tive oportunidade de trocar algumas palavras com o Pedro e com o Nuno. Que talvez estivesse a andar rápido, mas agora era seguir e aproveitar enquanto o sol ainda não descobria. Até aqui não tinha provado sequer uma migalha de calor perturbador.

Aproveitei para me barrar com protetor solar, era meio-dia e mais hora menos hora ele aí estaria. Saí do Canal Caveira pelas 11h58m, com cerca de 2 horas de avanço face ao plano e estimativa iniciais, o que era bom, pois dava margem para o trajeto seguinte, que para além do calor, tinha um percurso de sobe e desce em extensão a té Beja, ondulado, sem grandes inclinações mas com comprimento bastante.

Despedi-me do pessoal do restaurante que me desejou boa viagem, pois havia chamado a atenção com capacete, luvas e colete, e comentámos as incidências até ali e dali para a frente. Encorajaram-me dizendo que era sempre a descer até Vila Real de Santo António J, mas que fosse depressa pois o sol ainda ia aparecer certamente, era raro o dia estar fresco aquela hora. Agradeci e arranquei, rumo a Beja. Estômago cheio, protegido do sol, com as pernas descansadas, chegara a hora de começar a gerir uma das variáveis mais perigosas e que poderia motivar a passagem ao plano B, encostar pelo caminho em alguma localidade ou no limite em Beja, caso aquecesse demais.

Com 107km percorridos as pernas estavam excelentes e a motivação em alta. O efeito do vento não se fazia sentir, mas estava lá bem gravado no relógio e na margem que ia acumulando. Não sabia, mas estava passada uma fase importante, mentalmente, a da superação das pequenas dores iniciais de alerta das pernas e do traseiro, e a da inércia que se instala quando se percorrem troços muito longos sem as devidas paragens.


Em termos estratégicos, as paragens de hora e meia em hora e meia, rápidas, tipo dez minutos para hidratar e petiscar, junto com as paragens maiores de meia hora a cada cinquenta ou sessenta quilómetros, revelar-se-iam perfeitas.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Etapa 1: Cassa - Cais do Sodré - Cacilhas - Setúbal/Troia

Casa - Cais do Sodré = 12 km
Cacilhas – Setúbal / Troia = 39,7 km

Total Etapa 1 = 51,7 km

À boa maneira das corridas, a semana foi de descanso. Assim como a anterior. Duas sessões de treino leves e na semana da aventura apenas uma saída até ao cais do Sodré e volta, quarta feira de manhã, para reconhecer o percurso na saída.
O último treino longo havia acontecido dois fins de semana antes, com um acumulado de 190 quilómetros, entre sábado de manhã (90 minutos de intensas subidas na zona de Barcarena); sábado à noite (100 km com a subida noturna à malveira da serra) e domingo de manhã com 60 quilómetros a rolar, junto com o nuno e com direito a um travesseiro na pastelaria Garrett no Estoril, para avivar as memorias de nadador adolescente).

A lista estava verificada:
  • Powerade – três garrafas
  • Uma camisola de manga comprida, duas de manga curta
  • Pilhas para a luz traseira e para a dianteira
  • Luz pequena para a frente, suplente
  • Bomba
  • Colete refletor, capacete e luvas
  • Banda refletora para o tornozelo
  • Dinheiro – cerca de 30 euros para travessias de barco, almoço e compra de líquidos e snacks
  • 3 sandes de queijo com doce de tomate
  • Duas camaras de ar suplentes
  • Documento de identificação
  • Pano com pescoço comprido para proteger a cabeça do sol
  • Plano do trajeto em papel, com os quilómetros totais e parciais (ver o post de início de julho)
  • Protetor solar (falhou, esta foi a compra na zona da comporta quando o sol estava a ameaçar romper)
  • Creme barral, logo de manhã uma passagem bem cheia nas partes sensíveis
  • Umas meias e umas cuecas suplentes
  • Caneta

Tudo pronto e arrumado, essencialmente na mochila (não utilizo, por enquanto, armação para suporte de malas), a saída aconteceu exatamente às 5h45m. Tudo a postos, uma sandes permitiu começar a ingestão ao longo do dia. O segredo das longas saídas de bicicleta, para além do treino continuado e da acumulação de quilómetros, reside essencialmente na gestão dos ritmos e dos descansos e na ingestão contínua de calorias e líquidos para repor o que se vai perdendo.
Como era de noite optei (bem) pela camisola de manga comprida. Junto ao rio, no museu da eletricidade o mote: “ a noite é boa conselheira”, a letras vermelhas bem iluminadas. Concordo. Boa conselheira quando nos sabemos integrar bem nela. Sem carros e sem grande agitação (algures em Alcântara Mar alguns sons vinham do Hawai), algo pouco comum há uns anos naquela zona e numa madrugada de sexta-feira.

Primeira paragem, no terminal fluviário do Cais do Sodré, na hora prevista 6h15m. Alguns jovens que regressavam à margem sul vindos da noite lisboeta produziam um pouco de ruído, sem incomodar. Cinco minutos de espera e eis que surge o barco, de onde começam a sair os trabalhadores madrugadores, o povo da margem sul que se dirigia aos seus locais de trabalho. Gente que para estar às 6h20m no cais do Sodré havia certamente acordado bastante mais cedo, gente com feições marcadas pelos dias longos e pelo tempo para pensar na vida nos trajetos madrugadores onde poucas pessoas ainda povoam os barcos.

No barco que partiu à hora prevista, 6h23m, com muito poucos companheiros de viagem, uma olhada à mochila, fiz a mudança de camisola para modo manga curta e a preparação mental para um dia longo. Lisboa ficava para trás, as colinas e os telhados que se vislumbravam por entre uma ténue neblina, o rio a ditar as regras com um ligeiro ondular. Na porta da casa de banho, fechada, uma mensagem do género “caso deseje utilizar, contacte o marinheiro de serviço”. Afinal existem marinheiros que também dão suporte às pequenas travessias, quando geralmente penso em marinheiro integrado em grandes navios.

Chegado a Cacilhas pelas 6h38m, vinte e dois minutos antes da hora de saída prevista, era altura de pedalar. Motivado fiz-me à estrada. Uma ciclovia relativamente bem conservada permitia ir, aquela hora, ao lado dos carros e em bom andamento. Os estaleiros da Lisnave, imponentes, senhores de tantas empreitadas, lutas e aventuras davam o mote para um dia em grande. Mais à frente as primeiras camionetas saiam para o início do dia de transporte de muitas vidas.
Rapidamente cheguei à Cova da Piedade, terra familiar da infância e adolescência, ou não fosse a Sociedade Filarmónica União Artística Piedense um dos locais e coletividades onde se realizavam inúmeras provas de natação na piscina então descoberta. Relembrei com saudade as várias vezes em que participávamos nas 24 horas a nadar, noite e madrugada adentro, sempre bem tratados pela família Freitas e pelo coletivo da SFUAP e os episódios de estreia na visualização de filmes para adultos, na companhia dos colegas de equipa, nas sessões da meia noite, quando a idade era ajustada aos requisitos de entrada, julgando nós, jovens imberbes que enganávamos alguém.

Mais à frente e na pequena inclinação da estrada tempo para apreciar a confusão urbanística à qual o metro de superfície terá dado alguma harmonia (minha opinião que não percebo nada disto, nem da zona naturalmente). Deparei-me com algo que nunca tinha visto, um edifício onde em grandes letras está inscrito “Igreja Mundial do Poder de Deus”. No meio de tantas igrejas, esta era uma novidade. Do outro lado da rua a funerária Cruz, uma das pequenas, certamente a lutar contra os impérios multinacionais, e a captar clientes, quem sabe, para quem a ajuda do lado contrário da estrada não terá sido suficiente.

Seguindo caminho, em bom andamento, uma série de descidas permitiam ganhar algum tempo ao plano. O vento de costas ajudava. Rapidamente cheguei à estrada para Setúbal, após a Cruz de Pau, e entrei na estrada para Brejos de Azeitão. Pelo caminho e um pouco desorganizados na memória apareceram-me a cínica do Dr. Nashimura, orientada de acordo com a placa exterior, para a coluna vertebral J, a fábrica das tortas de Azeitão que para meu desgosto se encontrava fechada à hora que passei, as instalações, muito degradadas da Associação Empresarial da Região de Setúbal, a fábrica da “Bacalhoeira” de onde  emanava uma brisa a belos vinhos e a rodoviária do Alentejo, também com uma considerável degradação exterior. Logo a seguir uma pequena subida e eis que surge o caminho já numa das encostas da Arrábida, rumo a Setúbal.

Sem conta quilómetros, que havia finado uns dias antes, ia vendo o tempo e percebendo que estava algo adiantado. Com duas ou três descidas retemperadoras, Setúbal estava à vista e quando olhei para o relógio percebi que havia ganho bastante tempo. A hora prevista de saída de Setúbal era as 9h30m, e pelas 8h31m tinha passado a Avenida Luísa Todi e estava a comprar bilhete para o ferry, rumo a Troia. Um pouco antes, sem ter noção do horário dos barcos decidira não entrar num supermercado para comprar protetor solar, o que e revelou uma boa decisão, pois permitiu-me apanhar o ferry das 8h40m, quase sem interrupção nem tempo de espera.
O tempo estava fresco, o sol escondido, o clima ideal para a longa distância, a motivação em alta.
Aproveitei o Sado e a travessia para alongar e comer, bem como fechar a primeira das garrafas de powerade. Na margem oposta Troia ia estando mais próxima.
Um rapaz com sotaque nortenho, também de bicicleta perguntou-me se me dirigia para Sines; queria companhia. Respondi-lhe que não e desejei boa viagem, ele que ia bastante mais pesado do que eu, com saco cama e um saco de viagem. Já em Troia, a saída e a segunda etapa a começar.
Entretanto havia recebido mensagem do Pedro a dar força e a acertar na previsão de que estaria por terras de Setúbal. Ponto de situação também ao Nuno e lá segui viagem.


Percorrer estas longas distâncias também se deve caracterizar pela estratégia de decomposição do todo. Partindo muitos quilómetros em bocados uniformes ajuda mentalmente a focar em vários objetivos, que se vão desenrolando para um objetivo maior e permite marcar pontos de controlo para avaliar o progresso e recuperar forças.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Brevet Pessoal Guadiana 300 - 306 km a pedalar

É difícil exprimir a felicidade na descida e no trajeto final, habitualmente realizado de automóvel.
Foi o culminar de uma ideia nascida uns meses antes, de um processo de muita aprendizagem, de um plano de viagem com limites bem definidos, de um dia de férias antecipado e preparado para um retiro pessoal, um dia de reflexão em movimento em cima de uma bicicleta, um dia de aventura por entre novos cheiros, pessoas e vistas.

Dezoito horas e nove minutos antes saía de Miraflores rumo ao sotavento Algarvio. Cais do Sodré, Cacilhas, Setúbal, Troia, Grândola/Canal Caveira, beja, Mértola, Vila Real de Santo António e a terra dos banhos, eram simultaneamente os destinos e os postos de controlo e avaliação. Foram trezentos e seis quilómetros de puro espírito de viajante, sozinho à descoberta, de lugares mas, sobretudo, dos limites e de mim próprio.

Há precisamente um ano, também em férias, no final de julho, havia passado uma semana dura, com um episódio de hérnia discal, uma das duas que cá estão, bem presentes. As atividades de férias, a canoagem com a criançada ou sozinho na ria formosa, as brincadeiras na praia, não são o melhor seguro para manter a saúde da coluna, quando já não está 100%.
Sem conseguir, nem querer correr (algo que desde 2012 percebi que me fazia mal e era incapacitante para a vida quotidiana) e tendo tomado a decisão de abandonar essa paixão da corrida (algo de que falarei num próximo post), dado o prejuízo que me trazia, impus-me agarrar a qualquer outra forma de movimento e de exercício.
Caminhar seria sempre a base, mas precisava de mais. Nadar é algo esporádico por estes dias, de vez em quando vou à piscina com um dos meus filhos, mas não tem tido a frequência que teve noutros tempos.

Num primeiro momento e ainda em férias em 2013, utilizei a bicicleta como forma terapêutica, pois, ao contrário do que poderia ser expectável e do que todas as pessoas à volta me diziam e/ou recomendavam em sentido contrário, pedalar não agravava a dor; pelo contrário, foi-me ajudando a manter a atividade, a alongar bastante bem depois de cada passeio e a ganhar confiança.

E continuei, sempre, entusiasmado, como quando em criança descobri a bicicleta e a liberdade que permitia.

Desde há três anos que tento participar, com pouca disponibilidade,  diga-se, na dinamização de uma organização chamada “Randonneurs Portugal” que promove eventos de “pedalar para longe”, com regras internacionalmente definidas e cujas iniciativas são designadas de brevet randonners mondiaux, os BRM.
Os BRM são eventos de 200, 300, 400, 600, 1000 ou 1200 quilómetros, em autonomia, onde os Randonneurs participantes podem auxiliar-se, mas sem apoio externo.

E assim, após as três primeiras semanas de recuperação do forte episódio que referi acima, em que não mais tive problemas (desde essa altura nunca mais tive qualquer reincidência), continuei a pedalar, entusiasmado e a aprender uma nova forma de movimento.
Estabilizei nas três ou quatro sessões semanais (um dia geralmente à noite durante a semana; quando posso, dois) e as manhãs bem cedo de sábado e domingo, como quando corria.
Desejava fazer um primeiro BRM de 200km em outubro do ano passado, mas não foi possível por coincidir com a festa de aniversário da Rita.
Continuando sempre a pedalar comecei o ano de 2014 com uma primeira aventura de 100 km, para ver como me sentia. Perto de casa, entre a Expo e a boca do inferno em Cascais, fiz um circuito nessa distância e consegui. Decidi aí fazer um BRM de 200 km em janeiro, e depois deste, um outro em fevereiro (a seu tempo cá estarei com a descrição destas duas aventuras).
A partir daí não tinha mais objetivos a não ser pedalar por prazer e continuar a aprender em cima da bicicleta, desfrutando dos passeios, sozinho ou com os meus Amigos domingueiros. A minha GIANT, que me custou 100 contos em 1991, na altura 2 ordenados de professor de natação, e que pesa 14 kg, é um misto de BTT com urbana e não deixava, pensava eu, margem para grandes aventuras para além dos 200km.

Mas … e o início desta aventura rumo ao Sotavento, como qualquer outra, tem sempre um mas ou um “era uma vez”, …, no final do primeiro BRM de 200k um Randonneur chamado Rui Rodrigues contrariou a minha versão de que 300 km só com uma bicicleta de estrada. Referia na altura o Rui que, “porque não …”, apenas com uns retoques, era perfeitamente fazível.
Ficou-me na memória. E há cerca de 3 meses decidi que tiraria um dia de férias só para mim, para vir de bicicleta para junto da família no sotavento algarvio.

Havia que escolher o percurso de acordo com os requisitos: fazer uma etapa única, tendo como referência o tempo de 20 horas, o limite para concluir oficialmente um BRM 300km. Ouvidas várias opiniões optei pelo percurso menos longo, que me foi sugerido pelo Pedro, e que perfez 306 km desde a saída de casa até à chegada.

O dia chegou, tudo correu muito bem, foi um processo de grande intensidade, de grande aprendizagem, de grande felicidade e realização. Foi planeado ao pormenor (algum pormenor apenas, …), tive bastante sorte com o tempo (vento de noroeste e o calor a dar algumas tréguas – máxima de 34 graus entre Beja e Mértola), mas foi sobretudo o resultado de um trabalho continuado e bem realizado de treino e preparação em qualidade, com alguma quantidade – realizei nestas últimas semanas três treinos de 100 km, uma com bastante desnível – a preparar a serra do parque natural da reserva do Guadiana e Mértola; outra noturna – a preparar o final; outra no pico do calor – para preparar Beja e Mértola. Foi essencialmente o resultado da continuidade e da acumulação de passeios – no espaço de 1 ano já pedalei mais de 6.500 km e essa é a principal razão para ter conseguido fazer estes 300km numa única etapa, duas horas mais rápido do que havia planeado e com as pernas e o rabo em boas condições.

Descreverei aqui cada uma das etapas com os seus detalhes, delícias e pormenores.
Para já, está feito, valeu, não apenas, ou não exclusivamente pela felicidade no final, que como qualquer momento de felicidade, se esvai rapidamente, mas por todo o caminho, pela aventura, pelas histórias para contar, pelas perspetivas futuras.

Um agradecimento, desde já, a todos os que me ajudaram nesta aventura.
Para já à malta cá de casa, porque sem qualquer receio sabiam que ia conseguir e também têm a paciência para aturar as saídas por vezes mais longas.
Ao Pedro e à Filomena pelo bicho que tomou conta de mim, e ao Pedro em particular pelo mentoring e ensinamentos permanentes e pelo espírito – o espírito que interessa.
Ao Nuno e Carlos pelo incentivo e pelos passeios de domingo. Ao Pedro BD por todo o ensinamento, partilha e afinação da bicicleta. Ao Paulo M. pelo vaticínio de que a seguir aos 200k começaria logo a pensar nos 300 km J.
À malta Amiga que foi desejando boa sorte.
Aos vários Randonneurs com que me tenho cruzado, pelo exemplo e partilha.
Naturalmente ao Rui, que sem saber, foi uma alavanca para esta aventura.
E ao longo do dia do longo passeio, um obrigado ao Pedro, Nuno e Luís, por toda a força, partilha e ouvidos.

Mais aventuras estão à espera, mas para já é continuar a pedalar e passar por aqui para contas em 6 etapas as peripécias deste dia.

domingo, 6 de julho de 2014

Plano traçado

estou quase a completar 6.000 km de pedalada, desde o dia 5 de agosto de 2013.
devagarinho, tartarugando, lá se vão acumulando passeios e fortalecendo os gémeos.

duas vezes 200 quilómetros, uma dúzia de vezes com 100km, deixaram-me o bicho dos desafios longos.

o próximo é este:

300 km Algés - Algarve





Hora saida km Total km
alges 05:45:00 0
Terreiro Paço 06:30:00 12 12
cacilhas 07:00:00 12
setubal 09:30:00 39,7 51,7
troia 10:30:00 39,7
canal caveira 14:00:00 56,1 107,8
beja 17:30:00 61,2 169
mértola 20:15:00 52,5 221,5
vila real santo antonio 00:30:00 66,4 287,9
"a banhos" 02:00:00 18,1 306

o plano está traçado!
haja pernas e sobretudo diversão!
:)

sábado, 5 de julho de 2014

A primeira ... sempre a primeira vez

hoje foi dia de subidas, duras subidas, um excelente treino.
a zona escolhida foi barcarena.
saí de casa por carnaxide pelas 7:00am, direito a valejas e o primeiro desafio foi a rampa de valejas para queluz de baixo.
já a fiz várias vezes, vai ficando mais habitual e fácil, mas ainda assim tira o fôlego. é sempre uma primeira vez mais conhecida e familiar.
a partir daí entre queluz, fábrica da pólvora e barcarena, andei às voltas à espera do nl.
uma primeira abordagem enquanto esperava foi subir barcarena para vila fria.
também nada de novo e com uma estratégia já feita de experiência, custou um pouco menos do que das outras vezes.
passado um pouco e já com companhia, mas uma, desta feita, barcarena-queluz de baixo.
uma primeira vez, dura, desafiante, que deu para a conhecer, com prazer e algum sofrimento.
nova ronda pela fábrica da pólvora e novamente a subida de barcarena para vila fria.
com uma mudança de ritmo, um pouco mais suave, ainda se tornou um pouco mais fácil do que antes.
a partir daí seguimos para oeiras, paço d'arcos e marginal para perto do mar, o regresso a casa junto ao elemento primeiro, sempre o regresso, sempre a água.
era dia de muitas andanças com a rapaziada e com a Rita.

de cada vez que subimos a pique ou escolhemos um trajeto novo, pela primeira vez, subsiste sempre esse gosto pelo desconhecido, pela descoberta.
de regresso, é sempre como se fosse uma primeira vez, pois toda a experiência anterior permite vivenciar de forma diferente cada nova passagem por sítios antes percorridos.
mais fácil ou não, não importa, a experiência seguinte é sempre acumuladora de mais prazer e de outras, novas, vistas.

depois ... outra primeira vez, pela terceira vez!
foi dia da Rita ter a sua primeira bicicleta com rodas.
admirável mundo novo, tal como com o Rodrigo e André, é uma felicidade ver o brilho nos olhos, o apego ao novo brinquedo, o êxtase com este novo mundo, com a possibilidade de ser livre e não depender de uma cadeira que o pai carrega na sua bicicleta.
hoje foi dia de descoberta, para mim e para a Rita. por motivos diferentes. mas certamente com a mesma alegria da meninice de quem desfruta da liberdade do movimento, da aventura e de todas as possibilidades.

domingo, 22 de junho de 2014

Paixão pelo movimento

É isso.
O motivo do relato é a PAIXÃO, não por uma ou outra atividade, mas por todas, pelo desafio, pela descoberta, pela mudança, pelo movimento. Pelo autoconhecimento, pela busca da essência, talvez.

Não é exclusivamente uma paixão pela natação, a primeira grande paixão, que durou da infância até à idade adulta, praticada a um nível mais a sério e competitivo.

Não é, apenas, pelo basquetebol, pelo voleibol, pelo futebol, pelo ténis, pelo ténis de mesa, pelo andebol, pelo skateboard, pela carreirinha em pranchas de esferovite, mais tarde designada de bodyboard, pelo surf, pelo badminton, pela corrida na provas do liceu, pelo kayak mais recentemente (e que durou tão pouco, …, pois corpo velho, com hérnias, não pode aprender certas línguas)…, praticados por gozo até o corpo deixar de ter centro de gravidade adequado e peso e tonicidade  de jovem ou de jovem atleta, para permitir praticar a maioria desta atividades sem lesões.

Não é somente a paixão fulminante pela corrida, mais tardia, que chegou e bateu bem forte, a ponto de apenas ter deixado de correr por motivos de saúde que começaram a condicionar o meu bem-estar e o apoio que devia dar à rapaziada cá de casa. Ou pela caminhada que me servia para atenuar a dor na alma quando tinha paragens forçadas por lesão.

Não é, também, uma paixão particular e ainda mais tardia pelas atuais pedaladas e por montar uma bicicleta e pedalar muito, para longe, nascida como consequência das mazelas da idade; pedalar em vários níveis e desníveis, por vezes com as mais adversas condições atmosféricas.

O movimento, qualquer forma de movimento, devidamente organizado, é então o que esta paixão tem de essencial, desde tenra idade, para desfrutar plenamente do caminho.

Em qualquer das atividades que referi existe um traço que tornei comum: praticá-las significava gastar tempo, tentar evoluir, conhecer o patamar seguinte, aprimorar a técnica, estudar como poderia melhorar, melhorar, melhorar sempre, a técnica e o gozo por praticá-las. Independentemente de qual fosse, qualquer uma, foi sempre uma necessidade manter a prática, manter-me em movimento.

No caso da corrida e da bicicleta significou levar o corpo, e sobretudo a mente, a desafiar limites que julgava tão inalcançáveis quanto distantes. Significou arranjar a força e a disciplina, a perseverança, para terminar qualquer corrida nunca antes corrida, ou pedalar para muito longe, bem longe do que havia alguma vez acreditado. E sempre que terminava (que termino) cada um dos desafios resultante das novas formas de movimento, apesar das dores, do cansaço, da desilusão em alguns casos, de descrença noutros, estava, estou sempre e de novo a sentir a semente da vez seguinte, do desafio seguinte, do obstáculo seguinte.

Não interessa tanto, agora o percebo, o meio que escolho, o instrumento, para iniciar o movimento e renovar os novos movimentos que me vão surgindo na vida, na nova vida que cada um de nos descobre e redescobre, e renova, após cada desafio e cada escolha.

Parar é morrer, diz-se. Acredito piamente nisso. Cresci na praceta, no meio dos joelhos esfolados com erva, das mãos rasgadas com feridas e das normais nódoas negras nas canelas, no meio da vertigem e da adrenalina, do medo tão apetecível proporcionado por tantas forma de movimento, desafiadoras sempre e sempre das zonas de conforto. E é por isso que, seja de que forma for, é importante nunca parar com o movimento.

E as paixões, todas elas, dão lugar a novas paixões, a novos lugares, a novas pessoas, a novas descobertas. A novos caminhos, no encontro com a essência. O movimento, cada uma das atividades que escolhemos, permitem não parar. A atual é a bicicleta; pedalar para longe, o mais longe possível, gradualmente, desafiando a mente e conhecendo melhor o corpo e as reações, os limites, os riscos; possibilita-me a redescoberta, ter mais consciência de quem sou, de como sou e, sobretudo, de quem me quero tornar.

Sempre que pedalo estou mais perto … do desafio seguinte. Como quando corria, sempre que treinava ou que fazia uma maratona ou uma prova nos trilhos. Mais perto de crescer. Mais perto da derrota, da luta comigo mesmo, da vitória. Da essência.

Afinal, seremos sempre a forma como nos movimentamos, individualmente ou na relação com os outros. Sem importar muito a atividade e a forma como escolhemos para nos movimentar. Da atual paixão, pedalar muito, voltarei para mais uns pós de escrita :).

domingo, 15 de junho de 2014

De regresso

é o tempo do regresso :).
precisamente dois anos depois do último post no dia 17 de junho de 2012, após uma corrida da marginal à noite. tudo muda, nada perece.

porque os regressos devem ser feitos com calma e porque há muito que ir contando, tenho que organizar as ideias para recomeçar.
cá estarei, tentarei de novo dar ânimo a este espaço de que tanto gosto.
é aqui que quero continuar o caminho.

andei por outras redes sociais, acho piada, mas a páginas tantas não as sentimos como estes bébes que foram crescendo, tiveram que tirar sabáticas mas que perduram no coração.

para já informo os meus amigos da blogosfera que o Tartaruga mudou de vida no que diz respeito ao movimento. as corridas tiveram que acabar. mantiveram-se as caminhadas, alguma (pouca) natação e nasceu em força a pedalada na bicicleta.

é verdade, tartarugando, descobri o prazer da estrada, das longas saídas; já pedalei por duas vezes 200k seguidos, estou a preparar uma saída de 300 k seguidos, em julho, enfim, mais do que motivos para voltar a este espaço :).

até já. e obrigado a todos os que continuaram e mantiveram os seus blogues.
sendo algo mais pessoal para cada um de nós, permitem o fascínio de regressar sempre a casa, sem pressas, sem pressões, sem o espírito voyeur e auto-voyeur que hoje em dia assolam o mundo e outros mundos.

antónio

domingo, 17 de junho de 2012

Marginal à noite - 8 km, Oeiras

pois cá estamos no 2º post do ano :)
a corrida da marginal à noite foi soberba:
- excelente ambiente;
- excelente temperatura;
- várias caras conhecidas, antes e depois da corrida, o que não foi de estranhar no meio de tanta gente;
- a companhia dos rapazes Bento;
- o regresso a uma prova de que tanto gosto;
- o tejo ...!

o rodrigo desapareceu após os 1ºs metros e só o vimos na chegada. terminou com 43m, um tempo quanto a mim excelente. eu e o andré seguimos mais vagarosos e fechámos com 1 hora.

gostei sobretudo de ver a quantidade de gente a rolar, sem grande stresse nem preocupação com os tempos, apenas a desfrutar da corrida. em oposição, a 1ª metade dos atletas ia com máscaras de pleno esforço, sem dúvida a dar o seu melhor, mas, acredito, a perder todo o gozo do paraíso e do cenário que tínhamos, lado a lado com a corrida.

os rapazes gostaram, um excelente indicador para eventos futuros.

e hoje lá fiz mais um treino, de 46m, ao final da tarde, em jeito de aquecimento para a brilhante vitória da seleção e consequente apuramento.
a evolução este ano promete, em fevereiro uma corrida de 5km, agora uma de 8km; quem sabe em setembro ou outubro não venha uma de 10km e lá mais para o final do ano, algo maior???

abraço a todos e ótimas corridas e exercício.
antónio

domingo, 19 de fevereiro de 2012

5 km de Cascais



em 1º lugar votos de um excelente 2012 – ou do que dele falta, para todos! :)
já aqui não venho há cerca de 3 meses e portanto ainda é devido este voto.
voltei, e para relatar o regresso às corridas de estrada.

17 meses depois, entre setembro de 2010 em cascais nos 10km do destak e hoje, nos 5 km de cascais, a chamada rapidinha. uma corrida muito especial.
os machos cá de casa estavam todos inscritos. o rodrigo lesionou-se na 6ªf, deitando um joelho abaixo. sobravam 2. a expectativa era grande. de manhã acordámos e com o sol resplandecente, percebi que tínhamos que nos apressar para ainda levantar dorsais, pois tinha lido na véspera que talvez até nem estivessem a distribuir …!


lá fomos, cerca de 20m de trajeto até cascais, onde na autoestrada nos cruzámos com vários carros que não enganavam, todos a caminho da tradicional corrida de cascais.
sentia o andré algo expectante, pois era a sua estreia em corridas com o pai.
chegados ao mercado lá fomos levantar o dorsal e tudo correu bem, mas já com o aviso de que para o ano só na véspera :( (perguntava-me silenciosamente, como será então com quem vem de longe no dia da prova???).


entre a fase de equipar, prender o dorsal e aguardar um pouco dentro do carro, tivemos tempo para, cúmplices, desfrutar o sol quente a banhar-nos de frente e a convidar a uma ligeiro fechar encostados aos bancos.


arrancámos a trote para ir aquecendo e o andré ia acelerado, tendo-lhe sugerido que o ritmo devia ser mais de trote e menos de galope, pois era exatamente para aquecer e apenas isso. tentei ver alguém conhecido, mas a malta profissional dos 20 km já devia estar alinhada lá mais à frente. juntamo-nos à massa junto do 2º pórtico, o que dizia meta e o ambiente era engraçado, com mascarados e troca de piropos mas, sobretudo, sem aquela adrenalina do cronómetro e da ansiedade da “prova”.


dada a partida dos 20 km ficámos a admirar o bonito espetáculo das cores a serpentear subida acima até ao quartel e a fazerem a curva, dos milhares de atletas que se afoitaram na corrida maior. passados uns minutos o presidente da câmara de cascais lá foi tocar a buzina e começámos devagarinho, meio a caminhar, meio a andar.


correu muito bem a 1ª subida, o andré ia satisfeito e lá seguimos até à boca do inferno, onde o atlântico nos esperava, imponente e apetecível.
na subida até à viragem, cerca dos 2,5km, fomos passando algumas pessoas que caminhavam já fatigadas pelo arrancar mais rápido e inexperiente. o andré seguia confortável e eu ia nas não 7 mas 7000 quintas, muito satisfeito, no ritmo do deleite.
os carros esperavam nos cruzamentos que a massa passasse, curiosamente sem grandes buzinadelas e com um ar bastante sereno, e lá ao longe seguiam, já numa outra dimensão, os 1ºs dos 20km, sempre a abrir.


cerca dos 3,5 km o andré pediu-me para abrandar um pouco o ritmo e seguimos até à descida do antigo cinema oxford, onde retomou o andamento anterior, já mais descansado.
até à chegada foi um pulinho, sempre acompanhados por pessoas de várias idades, motivações e andamentos, numa excelente “onda”, muito calma e serena, sem stresse e a desfrutar totalmente do momento. afinal ser tartaruga é para desfrutar com a respiração calma e sem estar ofegante, “para poder ver melhor”, como lobo mau! :)


terminámos com cerca de 30 minutos (a corrida não tinha 5 km …) e correu muito bem.
foi talvez a corrida que mais prazer me deu, pelo baixo ritmo (penso que reencontrei o ritmo onde gosto de fato de correr) mas sobretudo, e totalmente, pela companhia do andré, de 12 anos, que creio ficou também muito satisfeito por ter corrido sempre a meu lado.
penso sobretudo que lhe ficou o apetite para corremos mais vezes, nesta forma também bastante cúmplice de partilha entre pai e filho.


a caminho do carro para o regresso a casa, ainda vimos quase na chegada a sandra, a mãe dos meus sobrinhos, e foi uma festa, que talvez até possa continuar num próxima corrida, em que a faremos, quem sabe, todos juntos.
uma bela manhã, um belo dia, e para o ano, nos 5 ou nos 20, poderei ter novamente companhia, mas alargada aos 2 rapazes e eventualmente até a rita já estará a participar ...

resto de um bom fim-de-semana e de período carnavalesco, é ótimo regressar aqui a este espaço e assim arranje atividade que o justifique – farei por isso.
antónio

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

12 km trilhos castelo de palmela – forte de são filipe (setúbal)


nota: fotografias na ordem inversa, do final para o início


assim foi: de um convite improvável a meio da semana, eis-me, acompanhado do rodrigo e de mais cerca de 40 caminheiros, numa aventura pausada, suave, num dia magnífico. a caminhada foi organizada pelo clube de montanhismo da arrábida.
foi altamente motivadora a experiência. partimos do castelo de palmela, após a concentração em setúbal na avenida luísa tody e do transfer por autocarro. estava frio, mas rapidamente deu para aquecer.

primeiros quilómetros sempre a descer, com uma magnífica vista. começam as subidas e eis-nos numa zona que me foi familiar – vale de barris, recordações dos trilhos de 30 e 20 km de há 2 anos. as experiências agradáveis nunca se esquecem. lá em baixo uma série de corredores davam azo à vertigem corredora. soube agora no blogue da ana pereira que era o grande prémio da arrábida organizado pelas lebres do sado. a caminhada prosseguia com as pausas para ingerir líquidos e sólidos.

o rodrigo queixava-se do baixo ritmo :). eu ia desfrutando da paisagem e comparando estes trilhos com os trilhos a correr. com menos adrenalina, mas com mais tempo para realmente desfrutar da paisagem e do momento. as pernas iam começando a pesar, mas o cardio estava óptimo e eis-nos, ao fim de quase 3h e meia chegados ao forte de são filipe.

como não conhecíamos, lá fomos visitar o forte, com a pousada integrada. é algo de majestoso, como as fotos podem comprovar muito mais do que eu. e o estuário do sado, em todo o seu esplendor, lá em baixo, mostrando que o dia era efectivamente todo belo. uma excelente jornada, a companhia do meu filho varão, algo insubstituível, muita aprendizagem, quer no que toca a uma nova abordagem ao exercício, quer relativamente à serra da arrábida, palmela, setúbal e arredores, quer actualmente, quer sobre a história.

até breve, um abraço e continuação de bom “movimento”,

antónio






































quarta-feira, 16 de novembro de 2011

60 minutos

é uma barreira como qualquer outra.
mas actualmente significa ... treino longo de domingo :).
já em 2 domingos seguidos foi possível realizar 60 minutos sempre a correr.

para já e sem objectivos definidos para participar em provas, não andarei com longos muito mais longos o que os 60 minutos.

mas sabe sempre bem, após um ano de "envelhecimento" atlético, ultrapassar estas pequenas barreiras.

até breve.
abraço
antónio

domingo, 6 de novembro de 2011

Por vezes acontece

não ter vontade de parar.

ontem
por entre uma bátega de água,
a descida até algés para ver uma estação robotizada por máquinas de acesso às plataformas,
um passeio entre algés mar e a cruz quebrada,
a subida para o regresso a casa pelas instalações da grundig e magnificas vivendas e moradias dessa zona da cruz quebrada e algés de cima,
a magnífica vista no alto de santa catarina sobre o tejo, a foz e o mar,

passaram cerca de 50 minutos.

aí apetecia mesmo continuar, mas o bom senso lá me segredou que era melhor fechar a corrida e regressar caminhando.

assim o fiz, e como calculei bastante mal o momento do regresso a correr, ainda tive uns bons 15 minutos a andar, que souberam que nem ginjas.

hoje há mais, e … keep going! já se vai sentindo menos dor e melhor respiração nas subidas!!!

bom fim de semana em movimento.
antónio

domingo, 30 de outubro de 2011

1 hora extra

mudança de hora, treino hoje de manhã pelas 7h, 8 de ontem, 1 dia com 1 hora extra.
o tempo estava fresco mas muito agradável, o sol dava alento, as folhas no seu amarelo torrado esverdeado mostravam o porquê da beleza da vida.


saído de casa sem trajecto definido decidi-me pelo percurso linda-a-velha, estádio, regresso.
a pequena subida inicial sem grande custo permitiu aquecer e chegar à carreira de tiro em passo brando mas confortável. pouca gente nas ruas, poucos carros ainda, um início de manhã tranquilo e muito reconfortante.


no complexo do jamor a passagem pela pista da canoagem, onde ao lado o jamor corre novamente, depois das primeiras chuvas e da seca forçada.
alguns seniores faziam já elíptica nas redondezas, cheios do fulgor de quem sabe melhor do que ninguém que “parar é morrer”.

cruzei-me com 2 ou 3 atletas também em passo muito lento.
aos 25 minutos decidi regressar, as pernas e sobretudo o joelho esquerdo já acusavam um pouco o esforço (3 corridas em uma semana ao fim de 1 ano pesam nas dobradiças).

lentamente fiz-me à subida da carreira do tiro.
pesavam toneladas as pernas e custou alguma dor(zita) chegar cá acima ao solplay.
ofegante, consegui nunca parar de correr e após a reentrada na zona antiga de linda-a-velha, senti-me novamente bem e o prazer para a parte final do treino suplantou o cansaço.
terminei em excelente estilo (presunção e água benta …:)), muito solto à porta de casa.

excelente treino “longo” 1 semana após o regresso.

após o duche 1 hora de deleite com a rita e com o andré, pois o meu companheiro rodrigo não correu como há 8 dias, fruto de uma noitada com gente do desporto – não estou preparado para noitadas aos 13 anos, mas estamos sempre a aprender.

não consegui fazer o treino de sábado como desejava, mas para o regresso estamos falados, para a semana há mais – objectivo: pelo menos 3 treinos.

até breve e bom exercício.
antónio

sábado, 29 de outubro de 2011

Crise?

a distância permite, talvez, ver as coisas sempre noutra perspectiva.
um ano de paragem, uma recente ida à decathlon e a perplexidade:

- uns ténis asics gel kayano custam 170 euros?

vivemos afinal em que país?
naquele onde só podemos consumir em época de saldos, possivelmente.
e mesmo assim, com vários algoritmos de apoio à tomada de decisão pelo meio.

não admira que os índices de consumo estejam a cair todos os dias.
e que qualquer dia corramos todos descalços, como o lendário Bikila. a bem do prazer de correr.

previsão para o fim de semana: 2 treinos. vamos ver se dá!

abraço,
antónio

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os elementos

a chuva e o vento fortes penderam forte, sobre mim, hoje pelas 6 e meia da manhã.
para não me esquecer de que isto das corridas não é para meninos.
aventurei-me a essa hora para começar bem o dia. aqui pela zona, fui seguindo até ao alto de algés, onde ainda não se avistava o tejo, apenas luzes numa e noutra margem.
a subida dos bombeiros até à zona do solplay devolveu-me aquele sofrimento que nos impele a prosseguir, como em todos os desafios em que somos mais teimosos do que os obstáculos. cansado lá em cima, retornei a casa, pelo meio de linda-a-velha, ainda sem muitos carros a circular a essa hora.
ia-me cruzando com algumas pessoas, possivelmente a caminho do trabalho, e pensando no felizardo que sou, poder dispor deste tempo para correr, em vez de ter que sair mais cedo para pegar ao trabalho, muitas vezes até fora da zona de lisboa.

o treino terminou com 45 minutos, respeitando os 10% de incremento face ao 1º de domingo. custou um pouco mais hoje, com mais subidas, a uma hora mais madrugadora com as pernas a ressentirem-se ligeiramente. mas a boa sensação de ter terminado e seguido para o duche retemperador, inclusive com água fria nas pernocas é algo intemporal.

2 treinos and counting!!!

abraço
até breve
antónio

domingo, 23 de outubro de 2011

Regresso à corrida

escolhi são pedro do estoril. escolhi as 8am. escolhi correr 40 minutos porque é uma duração já razoável para um primeiro treino e dava garantias de poder ver sem muita dor, logo de seguida, a final do mundial de rugby entre a nova zelândia e a frança em casa dos papás, porque não tenho sport tv.
escolhi o dia de hoje porque tinha que ser.
escolhi as raízes para o que tinha que ser.

tive a companhia do rodrigo. fantástico. quase 14 anos e já tão crescido; uma companhia plena na corrida.
já não corria verdadeiramente há mais de 1 ano. o polar assinalava um registo de 11-02-2011, de 54 minutos, sem mais. uma caminhada talvez e a partir daí deixei inclusive de levar o relógio.

hoje emocionei-me ao tirar a camisola, os calções e as meias da gaveta. a sério! que bom regressar.
e teve que ser hoje, obriguei-me, porque há sempre desculpas, mas hoje não! estava precisado. foi um ano intenso, sem correr, o nascimento da rita, os primeiros 6 meses de reestruturação das rotinas, a mudança de trabalho em dezembro, a doença prolongada do meu sogro desde março, o seu falecimento há 3 semanas, a nova reestruturação da estrutura familiar (um agregado familiar de 6 pessoas ??? quem diria? eu não, há uns tempos, mas cá vamos nós …) …

saímos da casa paterna e fomos junto ao mar até são joão do estoril. o mar rebelde, a pedra do sal imponente, o ar puro do mar e da manhã a revigorar a mente.
o cardio estava bem, íamos conversando amenamente, apenas sentia as articulações nas pernas e nas virilhas, uma espécie de queixa de desenferrujamento, pois há muito que não estavam habituados a tais façanhas.

em são joão decidi entrar para a parte “terra” e mostrar ao rodrigo o liceu onde fiz do 7º ao 12º ano, a praceta, as papelarias bonanza e ricco, o quiosque dos croissants com creme branco, as torres do mar antes tão altas, a escola primária da 2ª à 4ª classe, a 1ª praceta onde habitámos até aos meus 11 anos, onde ainda tenho os meus melhores amigos e família.
descemos para são pedro do estoril, pelas ruas/estradas desertas aquela hora, as vivendas imponentes, cheias de história, desde o antigo regime, ao pós 25 de abril com vários saques, permanecendo belas e sossegadas, como as árvores seculares.
mais outra escola primária, desta feita aquela onde fiz a 1ª classe, uma daquelas de arquitectura do antigo regime, agora a ser restaurada.
a 5 minutos do final do treino, na estação de são pedro, várias camisolas brancas preparavam-se para apanhar o comboio rumo à corrida do tejo. hoje nem senti vontade, apesar dos protestos juvenis, de quem queria ter participado.
hoje, a manhã era de regresso, com tudo o que os regressos têm de mágico e de promissor.

fechámos o treino à porta de casa ds meus pais, a final do rugby a começar, o dia a aquecer ligeiramente, os comboios a transportar corredores. sentia ligeiramente as pernas, nada de especial. sentia sobretudo a magia de ter voltado a correr. como quem, em pequenino, sente aquela liberdade de andar na rua, sem ninguém a controlar, e sabe que a estrada é infinita.

abraço, até breve
antónio

ps – a final do mundial de rugby foi um tempo bem entregue, vibrado em conjunto com os meus filhos rapazes e com os meus pais. a rita e a mãe brincavam a outros jogos a essa hora em casa, o rugby ainda não é para princesas de 1 ano, em meu entender :).