quarta-feira, 10 de março de 2010

26 (ou … um outro olhar sobre os Trilhos de Almourol)

sábado, 06 de março de 2010. a chuva castigava os viajantes em plena a1. na bermas inundadas de água, adivinhava-se o cenário aguado. uma viagem serena, graças à ao condução do meu amigo e mestre nk, também mestre na postura como cidadão da estrada.

entroncamento, a terra dos fenómenos.
um pavilhão modelo, com excelentes condições, onde há poucas horas haviam terminado as meias finais basquetebolísticas, num fim de semana de festa para a modalidade. bancadas vazias mas coloridas, a acalorar a noite fria. 2 viajantes em busca do dorsal que lhes daria o passe para mais uma aventura. rapidamente e junto da gente sempre disposta a ajudar, sempre uma invariante em terras pequenas e longe do individualismo das cidades maiores, somos encaminhados para a tenda. o casal brito, a cara da organização do clac, para estes trilhos. uma simpatia, ambos! um prazer receber o dorsal num espaço simples, mas acolhedor. porque erguido por gente sã, animada pela carolice de um sonho, o de trazer outros aventureiros, guerreiros e companheiros de pelotão, à terra e à beleza de uma zona que lhes é querida. a toda a equipa do clac, um enorme agradecimento e a justa homenagem pelo brio e pela organização de tamanha prova. também, em si, uma aventura, certamente, de que saíram mais ricos, sábios e com vontade de repetir para melhorar sempre mais.

conversa terminada, era a hora de percorrer alguns quilómetros até ao jantar. massa, no torres shopping. intimidante experiência, a de nem ter lugar para estacionar o carro no parque exterior, com o frio que estava. já não se convive em casa. agora, o shopping reina como contexto da partilha de afectos familiares. ou melhor: partilha virtualizada. após a ingestão dos benditos dos hidratos rumo a tomar, onde o nabão e uma residencial nos aguardava, nós os que se imaginavam os cavaleiros de uma nova e imemorial aventura, à procura da residencial dos cavaleiros de cristo.

tomar, cidade bela, onde o nabão corria forte, avassalador, perante uma urbe arranjada, limpa e acolhedora. tomar, a terra do buda, o desertor, acreditemos que por pouco tempo mais :), do 3º membro da equipa focatabu. tomar, o retiro dos guerreiros antes da peleja contra os elementos, mais uma, porque quem se inicia neste ofício amador de fim de semana, dificilmente o larga.

por esta altura reinava uma dúvida existencial na cabeça de um tartaruga. sim ou não, ser ou não ser (mais maluco), arriscar ou não? a garganta dava sinais, o trato respiratório superior estava completamente tapado e no dia seguinte estariam, implacáveis, à espera, os elementos. os agressores, para uma vítima voluntária.
a decisão de manhã. sim! à aventura. o pequeno almoço ajudou a revigorar (a simpatia e a qualidade do serviço tomarenses, pois a equipa da residencial antecipou em 30 minutos a abertura para pequeno almoço, só por nossa causa). o nk sempre solidário e sempre a incentivar. sempre de lenço de papel na mão e na trouxa, eis-nos rapidamente na zona da partida. após os cumprimentos habituais, a viagem de autocarro.

as brincadeiras entre companheiros de jornada ajudavam a esconder o nervoso miudinho, a adrenalina de não se saber o que viria a seguir, afinal a beleza do mistério das provas de trilhos. e ainda mais, numa 1ª edição. o autocarro afastou-se bastante da partida, tanto que perdemos a noção do tempo de viagem e apenas percebemos (percebi) que seria uma tarefa hercúlea, regressar. mas não havia regresso possível. como nas viagens que nos enriquecem, nunca regressamos os mesmos, ou da mesma forma, regressamos sempre diferentes e com novas perspectivas sobre nós e sobre o mundo. nunca regressamos, apenas partimos, de partida em partida, de aventura em aventura, sempre, sempre, em busca do mais fundo que carregamos dentro de nós.

no local da partida muita animação, muitas fotos, muitos piropos e conversas, encontros e reencontros. a festa de uma espécie de tribo, um subconjunto de atletas que tentam ir mais além da estrada, tentam buscar uma outra beleza e novos mundos no seu mundo.



fotos: AMMA


após a partida, desde logo o nk avançou. percebemos ambos e muito antes da corrida, que eu iria jogar à defesa desta vez e nem sequer esbocei qualquer tentativa de seguir perto.
foto: paulo fernandes - lebres do sado
as paisagens assumiram desde logo a liderança na corrida. a água, o meu elemento âncora (ser do signo peixes tem disto) predominava, ora inundando as terras, ora reinando no seu próprio espaço, ela, forte, serena, expectante, imponente. sucediam-se as subidas e descidas e a corrida adivinhava-se dura. seguia com as pernas pesadas, com algum cansaço pela respiração por vezes penosa. a companhia da célia e do sousa ajudava, e a espaços o hélder colava-se a nós. o mayer também seguia perto. chegados à barragem, um espectáculo único, a força da água, geradora da energia e renovadora das energias circundantes. um branco imaculado, a virgindade do poder total dos elementos, inacessível a qualquer vã tentativa humana de domínio.
foto: brito - clac

foto: AMMA


a prova continuava serpenteante, com verdadeiros trilhos, ora de pedra, ora de lama, ora de erva, ora de terra. sempre a subir, a descer, com poucos momentos planos.
foto: paulo fernandes - lebres do sado
como companhia tinha agora a cecília, solidária até ao fim, e a espaços, o moutinho, uma das lendas dos trilhos em portugal, o confrade dos trotamontes. e com ele lá seguíamos no plano e nas subidas, pois nas descidas ele acelerava, aquele corpinho robusto, mãos atrás, equilíbrio perfeito, quase inacreditável. e ensinou-nos: o mais importante nestes provas é a caminhada. atletas fortes podem cometer mais erros, podem acelerar antes de tempo que dá para ajustar; atletas menos profissionais, como nós, connosco os erros são menos toleráveis. o segredo, é treinar muito a caminhada. o segredo reside aí: saber quando e como caminhar, saber avaliar o estado real ao longo da prova, saber ser paciente. caminhar. e nos intervalos da caminhada correr um pouco :) e lá seguia o moutinho, de headphones, no seu treino para as 100 milhas do país basco. num mundo só seu, envolvido com a natureza e nos seus pensamentos. obrigado moutinho!

nos abastecimentos sólidos uma espécie de animação glicídica: marmelada, biscoitos, laranjas, sumos, ajudavam a restabelecer. no 1º confesso que ia em baixo, descrente. e ainda íamos a meio da prova. com a ingestão destes reforços animavam-se as forças. e lá seguíamos, incentivando-nos uns aos outros, todos na peugada da aventura, todos em busca da pedra preciosa que sabíamos só nossa, no final, no passo imediatamente a seguir à linha da meta. a dor aumentava. o cardio estabilizava, traduzindo por miúdos uma realidade crua: não dá para seguir mais depressa, daqui para a frente só há 2 alternativas: aguentar a dor ou desistir. mais depressa não, não deixo!!!
a cabeça tentava aniquilar as sensações contraditórias do corpo. a vontade de chegar, contra a dor em cada passada. e a atenção tinha que ser redobrada, fita após fita, para não gastar energia em vão. após constância, almourol com a estação de comboios onde nos perdemos ligeiramente, estação antiga e silenciosa, com o porte da nobreza que resiste ao tempo. o castelo brindava-nos com um imaginário de sonho e uma paisagem de excepção. após uns quilómetros e um novo abastecimento, em tancos, novas subidas, novas descidas, novas paredes, novas extensões de lama, novos desafios dentro do desafio maior, o que nos colocávamos a nós mesmos. brincando: o que estamos aqui a fazer num domingo? como comentou o joaquim Adelino: há um momento em que só queremos terminar, nada mais interessa. e eu estava assim mesmo, após as 4 horas de prova, o tempo a passar, os quilómetros também mas mais devagar, e só queria terminar. já nada interessava, nem o ritmo, nem o tempo de chegada, nem o tempo do controlo – há um momento em que o próprio tempo de controlo deixa de interessar, a dor desaparece e estamos quase num estado ou num patamar “branco”: nada interessa, apenas terminar. não há dores, não há sensações, a paisagem parece que está dentro de nós e não nós, quem estamos dento da paisagem. nós somos o contexto e para além pouco existe. mesmo a forma de enfrentar as subidas se torna quase ridícula, caricata, pois de tanta dor, nem hesitamos em seguir, em subir, pois sabemos que será até desfalecer, já não há dor, já não há angústia, apenas, apenas e só, o caminho, para a frente, mais ou menos moralizados, mas é para lá, para diante, aos tropeções, cambaleantes, mergulhando os pés na lama, retirando os ténis pretos de lodo, mal cheirosos, tendo que os descalçar porque estão cheios de terra e porque queremos chegar ao final. e porque sim!!! apenas. E sentamo-nos, na terra, sem saber como, nem sem saber como nos vamos levantar, mas uma coisa de cada vez, desatar os atacadores, tirar os ténis, sacudir, calçar, atar novamente e levantar. Como? Não sei bem, mas lá estava de pé novamente, pronto a seguir.

e vamos encontrando outros colegas, alguns já descolaram há muito, outros deixam-se apanhar, novamente o moutinho, a eliana e o hélder sempre à vista, mais ou menos à vista, e a cecília, super companheira, sempre a conversar – em quase 6 horas de corrida conhecemos uma outra pessoa, diferente da que conhecemos antes da partida, partilhamos opiniões, convicções, vivências, experiências. a riqueza dos trilhos, para além da comunhão com a natureza e connosco, também porque permite esta sequência de interacções humanas. segundo a segundo, sempre a aprender, sobre nós e com os outros.

o final aproxima-se, um ligeiro desapontamento com o anúncio de que final não falta 1 quilómetro, faltam 2 e meio. ainda corremos, ainda dá para correr, vamos em frente, o moutinho já não o apanhamos, mas a eliana e o hélder sim, já não se chama apanhar, chama-se acompanhar, porque precisamos de companhia, de conforto junto de quem passou pelo mesmo, é um partilha silenciosa, quase no final. ainda um riacho de água fria, regenerador, que devolve a vida e a vontade e a alegria de poder terminar algo único. sim, a fortuna de poder fazer o que muita gente não tem possibilidade de fazer, por muitos e variados motivos, sim! poder, com plena capacidade e controlo, terminar uma batalha interior, poder correr para a meta, rejuvenescidos e recomeçar a correr, quando o corpo já esqueceu das dores, já esqueceu de que há segundos apenas caminhava, penosamente, que raio de corpo é este, que espécie humana é esta, que das fraquezas faz forças, que ainda arranja tempo e vontade e paciência e energia, para terminar uma corrida de quase 6 horas, pleno de júbilo?



foto: AMMA


terminada a corrida restava agradecer e parabenizar a cecília, a eliana, o hélder, o casal almeida, o casal brito e otília, brincar com o tigre, e exultar, de alegria, uma alegria que poucos entendemos, apenas os que lá estavam, a organizar e a correr.

e o meu querido amigo nk, que ainda vinha do carro com o meu polar quente e meu blusão na mão, não tivesse eu frio. claro que agradeci e fiquei sensibilizado, mas tentei o mais gentilmente que consegui recusar e agradecer, eu que naquele momento ardia em felicidade, ardia de algo chamado a “febre do tartaruga”, tinha atingido uma elevada temperatura e estava num estado de exaustão e de excitação que se anulavam mutuamente.

eu que apenas queria gritar ao mundo a plenos pulmões que havia conseguido, que me havia desafiado e superado, que saía desta aventura mais forte, mais humano, mais sensível, mais rico, mais … apenas mais! e talvez, talvez, também, com uns poucos de menos: menos convencido de que há impossíveis, e menos convencido de que há muitas coisas importantes na vida.

é que no fim destas corridas, reforçamos (reforço) a crença de que o que importa é mesmo muito pouco. são as pessoas, é a vontade, é o medo e a coragem de desafiar o medo, mesmo cheios de medo e de incertezas. o que importa é saber receber o que a vida nos traz, todos os dias, as subidas, as descidas, as quedas, os abastecimentos, as gargalhadas, o riso das figuras ridículas que fazemos, o sonho, o desafio, o medo, a angústia, a superação, a crença, para a frente e em frente.

o que importa é saber que é passo a passo que fazemos, cada um de nós, a nossa caminhada, a nossa corrida, o nosso trilho. e que cada corrida de trilhos, de aventura, de 6 ou 60 horas, apenas é mais uma, no conjunto de corridas a que nos devemos propor e a que somos expostos todos os dias. e que todas contam para fazer de nós melhores seres humanos. mais solidários. mais vivos. mais plenos.
e cheios de vontade de nos metermos noutra aventura! :)
sim. é verdade. também aprendemos que pouco juízo ganhamos. mas que cada um escolhe a vida que quer viver. e é essa a que está certa!!!
até breve e obrigado pela paciência de me lerem até aqui.
ab - tartaruga

8 comentários:

joaquim adelino disse...

Parabéns amigo Bento pelo magistral relato desta sua odisseia, da odisseia de todos nós.
Existem momentos que nem a solidariedade amiga tem grandes efeitos práticos, perdemos a lucidez, aqui e ali tentamos puxar um ou mais amigos, mas e nós? como vamos prosseguir? é esta força estranha que nos acompanha que não nos deixa sequer desviar um milímetro que seja e que tem um só pensamente, chegar, seja como for mas chegar.
Foi isso que nos transmitiu neste magnífico exemplo que deu e sentiu numa prova de fogo suportável com grande esforço e sacrifício.
Um abraço.

Eduardo Acacio disse...

Que magnifico relato .. .e as fotos ficaram sensacionais...
Por aqui no dia 27/03 também irei em embrenhar em meio a rios, lamas e muito mato ...

Parabéns por nós dar a honra de ler algo tão sensacional !!!

Eduardo Acacio
Brasil

Ricardo Baptista disse...

António,
Parabéns por mais este impressionante relato.
E agora que outros épicos desafios se seguem?

BritoRunner disse...

Magistral António

É e será sempre um prazer ler os teus relatos.
JBrito

Vitor Veloso disse...

Olá António,
Mais uma vez foi um prazer de o ter conhecido pessoalmente.
Que maravilha de post, foi uma honra para mim em lê-lo porque recuei e revivi todos os passos nos trilhos.
Prova que vai ficar na memoria de todos não só por ser a 1ª edição, pela sua dureza e sua maravilhosa beleza natural.
Grande abraço
Vítor Veloso

César disse...

Muito bom, caro amigo!
Quero te parabenizar! :D

Mário Lima disse...

Bento

Meu companheiro em Terras de Sicó, afinal és tu o tartaruga?

:))

Boa descrição da prova, um espírito brincalhão no relato, uma pontada de poesia nas palavras e um terminar em apoteose.

Foi dura, foi bonita, foi imaculada, foi uma rameira, esta prova foi tudo isso, mas teve um final feliz.

Parabéns!

Anónimo disse...

Olá amigo
um prazer ler e reler as tuas palavras, parabéns também por esse dom.
Renovo também os parabéns pela tua aventura e em excelente companhia, foi uma honra ter-te como companheiro de jornada.
Grande abraço e vemo-nos por aí.
António Almeida