quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Infâncias

sou daqueles que por vezes olha para as brincadeiras da miudagem e sente muitas saudades dessa idade, dos jogos de rua, dos joelhos feridos, da bola de "caúchu" toda rebentada, do cabelo ensopado a correr para a carrinha dos gelados que lá parava na praceta todas as tardes no verão, dos canaviais e das falhas nas mãos, das fisgas, do bilas com os seus abafadores, enfim ..
e tudo isto porquê, perguntam?
porque o meu andré nos seus 8 anos tem um skate miniatura e brinca a um jogo que consiste em, basicamente, manusear o skate numa rampa miniatura com os dedos, e assim vai fazendo skate "dedal".
então e a sensação de descer a black & decker em s. joão do estoril, completamente sem rede, vertiginosamente, com aquela adrenalina do risco e do perigo da queda ou do choque no passeio, com as borboletas no estômago e com o riso, a gargalhada, o orgulho ou o choro de ter terminado e de ter atingido mais um patamar, ou ter falhado e ter vontade de voltar a tentar?
são sem dúvida tempos diferentes, nem melhores nem piores, mas o meu juízo de valor carrega essa nostalgia e estranho ver que os meus filhotes e a miudagem brincam cada vez menos ao ar livre, livres! e - parece-me - perdem uma noção de "todo" muito mais abrangente, quiçá real.
ab

5 comentários:

Anónimo disse...

Há algum tempo que não vinha aqui, vim hoje e deparo-me com um post que me diz também respeito... às vezes há coincidências cósmicas inexplicáveis...
Também me lembro desses tempos da black & decker que na altura parecia uma descida do camandro, uma vertigem dos carrinhos de rolamentos e skates.
Lembro-me dos joelhos esfolados e dos jogos de futebol na praceta do padre cabeçadas... lembras-te do intervalo das aulas... os sportings benficas que se faziam, eu sei, nunca ficávamos na mesma equipa, mas naquela altura essas rivalidades eram facilmente resolvidas... será que aprendemos alguma coisa com o tempo...?
E os abafadores no jardim dos baloiços...? E os baloiços feitos daquelas fitas que se usavam para juntar milhares de tijolos...? E, realmente, como dizes, era ao livre que fazíamos estas coisas todas. Hoje vivo no mesmo sítio ainda, pela janela vejo a varanda fechada daquela que era a tua casa, mas o jardim dos baloiços está trancado à chave - é uma espécie de condomínio fechado, a escola aumentou de tamanho mas o barulho do recreio já não me sublinha a manhã, o edifício da black & decker ainda lá está mas os vidros estão partidos e o armazém deserto.
ah, e a carrinha dos gelados também era especial, principalmente a música, como era? Não sei, mas sei que se a ouvir tornarei a sentir as mesmas borboletas no estômago, a mesma luz de Verão no asfalto da Praceta António Enes.
Desculpa a nostalgia, mas foste tu que começaste...! :-)
Grande abraço e um muito bom ano para ti e a tua família.
pedro miguel

Carlos Ferreira disse...

Adorei o post!
E o comentário do Pedro Miguel.
Obrigado aos dois.

António Almeida disse...

Palavras que nos fazem pensar, palavras que também me fizeram recordar os meus tempos de infÂncia (as fisgas, os abafadores, as pilecas, as leiteiras, as caricas, andar ao arco, os carros de rolamentos, o jogo do eixo, o jogo do lenço...), a liberdade das longas horas passadas na rua, pois é, são tempos diferentes os que correm, mas foi bom recordar e pensar.
Obrigado António Bento.

Lénia disse...

Pois é, são outros tempos.

Eu também tenho um André e receio que ele já não venha a disfrutar de uma infância tão rica quanto a minha.

Em parte, dever-se-á a mim. Ao meu medo. Medo que ele se magoe, que alguém o magoe... Não sei, achoque são outros tempos, e os pais em parte são cúmplices desta mudança. Não queremos que nada lhes toque, nem que sofram uma arranhadela. Vamos ver onde isto vai parar...

Luis Correia disse...

e como não podia deixar de ser, também me vieram á memória todas as descidas vertiginosas em skate pela movimentada Amadora, ou as descidas nos terrenos que agora são prédios no 'bairro da Mina' ou ainda as explorações tipo 'pequenos vagabundos' pelos terrenos do que agora é o Belas clube de Campo.

acuso-te de me teres despertado esta onda de pura nostalgia, há muito esquecida.

mas é de facto triste que hoje os miudos até tenham medo do betadine... fazer feridas significa ficarem de castigo e logo, ficam privados do acesso á sua consola de jogos ou PC.

é triste, muito triste... mas a vida continua!